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Plague Vector
08.11.2019—15.02.2020

Joanathan Uliel Saldanha

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Na sua exposição individual no Arte Fórum Braga, Jonathan Uliel Saldanha apresenta uma nova instalação imersiva para o vídeo “Plague Vector”. Numa sala fechada, Saldanha recria, usando luzes de várias cores, fumo, espelhos e som, uma complexa selva artificial de cristal. No espaço da galeria principal está exposta uma instalação vídeo multicanal que recorre também a ecrãs electrónicos e a projecções.


“Plague Vector” é um dos episódios do projecto cinemático que o artista tem vindo a desenvolver desde 2015. O vídeo mostra-nos um para-quedista solitário caído das estrelas, apanhado pelos ramos de uma selva alienígena em technicolor. O seu aparelho de rádio, que ele deixou cair durante a aterragem, alterna entre a emissão de hipnóticos sons de estática misturados com um conjunto de gravações da sua própria voz, as quais descrevem uma paisagem na eminência do colapso: um ambiente prostrado pela toxicidade da relação entre a natureza e o homem. O para-quedista – suspenso no ar, imobilizado por uma rede aeronáutica militar de fabrico humano emaranhada no mundo selvagem – vagueia por diferentes estados de realidade e consciência. De cada vez que ele adormece, o rádio intromete-se com um novo solilóquio, descrevendo ao minuto os detalhes daquela paisagem envenenada; e, de cada vez que isso acontece, o para-quedista responde sempre com a mesma mensagem monossilábica: “echo…”


Enquanto parte de uma investigação sobre feedback loops e sistemas híbridos natural/artificial, esta peça é representativa da exploração mais vasta empreendida por Jonathan Saldanha em torno das relações entre o humano, o espaço, a repetição, e as forças que os aproximam – para o bem ou para o mal. Este trabalho evoca especificamente o mito de Narciso. A história diz-nos que, um dia, Eco, a bela ninfa, encontrou Narciso a escalar as montanhas, sozinho e separado dos seus companheiros. Pressentindo alguém, Narciso chamou por ela, mas Eco limitou-se a repetir as suas palavras. Frustrado, Narciso fugiu. Após rejeitar os avanços de Eco, a ninfa amaldiçoou Narciso, condenando-o a um amor desencontrado. Em resultado, Narciso apaixonou-se pela sua própria imagem reflectida na água. E ali morreu, aprisionado na contemplação do seu reflexo.


Uma das maiores fontes de inspiração de Saldanha é o clássico de ficção científica “The Crystal World” (1966), de J.G. Ballard. Nesta obra, um médio viaja pela selva rumo a um centro de tratamento remoto. Ao longo do perigoso caminho, o médico descobre uma força estranha e apocalíptica que transforma tudo o que encontra em cristal duro e brilhante. Quando as coisas vivas são capturadas pelo cristal, ficam suspensas num estado intermédio de existência, fora do tempo e dos ciclos normais de vida. Este fenómeno de cristalização é uma metáfora da própria humanidade, da sua vontade de escapar ao tempo e à decadência, por forma a preservar e a prolongar o prazer e os danos da experiência do mundo.


Na selva de cristal de Saldanha, o para-quedista está também ele suspenso num estado intermédio. Apanhado num loop eterno, o homem vive num limbo causado pelas forças tando do homem como da natureza, trabalhando umas contra as outras. A vaidade do homem, que se julga capaz de circum-navegar as forças inescapáveis da natureza, como a gravidade, aprisionaram o para-quedista – da mesma forma que Narciso ficou preso na contemplação do seu próprio reflexo. Esta peça é uma metáfora maior da tensão antagonista entre o homem e a natureza, e uma reflexão sobre as tecnologias criadas pela sociedade e que tiveram como consequência a degradação do ambiente, conduzindo-o a um estado de emergência climática. À medida que os níveis de carbono aumenta e as forças de produção germinam, o sistema capitalista propaga-se o feedback loop tóxico reproduz-se.

 

 

 

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